quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A Vitória de Trump e a Ascenção Global de Governos Direitistas



A Vitória de Trump e a Ascensão Global de Governos Direitistas


Dennis de Oliveira Santos


A explicação da vitória de Trump e a guinada de governos direitistas mundialmente está atrelado a explicações populistas e de bodes expiatórios. Questões que bem manipuladas diante de uma crise global e do afastamento das esquerdas em atender as demandas populares tem alcançado seus objetivos. E isso é um processo histórico que se repete continuamente ao longo do século XX.
A ascensão de Hitler ao poder é o exemplo clássico desse processo. A Alemanha vivia um caos social, o qual era fruto da guerra dos mercados entre as potencias europeias e a sua derrota na Primeira Guerra. As causas do fracasso alemão eram complexas e estavam atreladas a esses fatores. Apesar disso, o autor do Mein Kampf soube se beneficiar dessa fragilidade social ao manipular as emoções coletivas sob a égide de um ensandecido nacionalismo. Ele atribuiu toda a instabilidade local a um bode expiatório, manipulação simplista que serviu como falsa explicação para o problema e gerou um clima de identificação nacional entre os germanos.
Esse bode expiatório eram os judeus habitantes daquele país. Como os alemães viam essa população bem-sucedida ao dominar bancos, comércios, propriedades rurais; identificaram na falácia nazista a lógica de que esses “estrangeiros” estavam tomando os espaços sociais dos nativos. O discurso básico fascista é elencar uma falsa explicação, um bode expiatório de fácil aceitação, fator que superficialmente faça sentido ao povo e o motive a tomar certos caminhos políticos.
Processo político semelhante é observável na vitória do estadunidense Trump. O flagelo social dos Estados Unidos tem como ponto de partida a crise imobiliária no ano de 2008 e ligada as ações do governo republicano de Bush. Entretanto, as consequências maiores foram vividas no governo Obama. Nesse ambiente, o democrata priorizou oferecer assistência aos mais humildes para amenizar os impactos sociais - criou programas de saúde para a população negra, procurou dá estabilidade de moradia aos imigrantes e etc.
Isso gerou uma revolta no seio da população branca e pobre - para esse setor era injusto dá benesses aos mais pobres enquanto eles perdiam seu poder de compra. É como se eles tivessem a sensação de estarem na fila do “sonho americano” enquanto negros e latinos furavam-na com apoio estatal; ganhando antes deles certas benesses. É dentro desse contexto que a ala republicana soube utilizar muito bem a explicação do bode expiatório - a crise existe porque Obama priorizou os negros, deu benefícios demais a eles, permitiu que os mexicanos fossem para o país e tomassem o emprego dos norte americanos. Uma explicação de apelo populista, muito superficial em identificar os reais motivos do crescimento da desigualdade social, mas suficientes para a identificação dos setores sociais menos favorecidos.
No Brasil se observa o mesmo fenômeno político, o país foi afetado pela crise global enquanto Temer utiliza o mesmo mecanismo explicativo ao elencar como a “caixa de pandora tupiniquim” os gastos sociais do PT com setores subalternos. Esse discurso foi responsável pela vitória de Macri na Argentina e tem enfraquecido o governo de Maduro na Venezuela.
Além desse processo acrescenta-se o fato de que as esquerdas se burocratizaram e hoje tem seus projetos políticos mais conhecidos pela classe média do que os próprios pobres. Isso é observável nos democratas a lá Clinton que geralmente pertencem as classes intermediárias nos Eua. O que também foi visto nas eleições municipais do Rio de Janeiro, cidade em que o PSOL teve uma votação mais expressiva entre universitários de melhor poder aquisitivo do que os jovens das favelas locais.

Percebe-se que a esquerda padece de um sólido sistema de comunicação que consiga penetrar nas demandas das classes subalternas. Qual é o resultado dessa condição social? Um contingente expressivo de pobres hoje órfãos de mudanças governamentais efetivas. O que dá margem a esse setor em se identificar com as explicações simplistas de partidos neoliberais. Um processo político observado nos Estados Unidos, América Latina e Europa através das urnas. 

domingo, 2 de outubro de 2016

A Fragilidade do Voto nas Eleições Municipais de 2016




A Fragilidade do Voto nas Eleições Municipais de 2016

Dennis de Oliveira Santos

Nas eleições municipais, as campanhas são uma junção de práticas políticas tradicionais ao uso de um intenso marketing televisivo. Tradicionalmente a ideia de um voto "ideológico", calcado no debate de ideias e nos posicionamentos partidários é substituída pela imagética exposição midiática que pragmaticamente eleva candidatos aos cargos de prefeitos.

No tocante a propaganda eleitoral gratuita, muitas vezes se percebe a ausência da coligação partidária de apoio aos candidatos e o nome do vice-prefeito nas exposições públicas das campanhas. Dentro desse ambiente é relevante ressaltar que o voto do "brasileiro médio" não é fruto da discussão de projetos ou alinhamento com posições partidárias.

Essa "nulidade" de valores partidários por parte do público votante é observável no primeiro turno dessas eleições em Santa Catarina, por exemplo, estado onde em mais de vinte cidades o PT apoia abertamente candidatos do PMDB. O que demonstra que a rivalidade nacional toma contornos muito específicos na esfera municipal. Acontecimento reeditado tomando eleições anteriores como referência. Nacionalmente os petistas apoiaram o partido de Temer em 648 municípios.

Essa política de alianças demonstra a fragilidade ideológica de nossas agremiações partidárias e a prevalência da mentalidade conservadora/patrimonialista de se estruturar o poder a partir de práticas clientelistas - inclusive um dos motivos que levou Dilma a ser deposta do poder. Ações estas que estão enraizadas no imaginário coletivo do nosso povo e seus respectivos representantes desde o século XIX, época em que apesar das divergências ideológicas e disputas políticas, os partidos simbolizavam a acomodação dos setores sociais abastados no centralismo político imperial.

Desde aquela época, longe de não se distinguirem em termos de composição e ideologia, os partidos políticos brasileiros se revelam como úteis instrumentos para atender as fissuras das elites, mesmo que elas fossem de natureza a provocar apenas reajustes no sistema sociopolítico do país. Fatos que se tornam evidentes hoje ao ver velhos caciques políticos como Acm Neto em Salvador voltando ao cargo público. Também representando essa visão tradicional de poder, o PMDB confirmou o mais do mesmo: o partido símbolo do fisiologismo demonstrou a sua supremacia nessa modalidade eleitoral, algo que acontece desde a primeira eleição após a Constituição de 1988.

Além dessas tradicionais práticas, o fator tempo de propagandas televisivas é determinante nos votos municipais. Diversos dados estatísticos e as discussões entre teóricos apontam para uma regularidade a cada eleição de que os candidatos que tiveram mais tempo de programa também foram os que ganharam mais intenções de voto. Na capital paulista, mesmo o empresário Doria (PSDB) ter sido candidato pela primeira vez, o mesmo conseguiu barrar a reeleição do petista Haddad. Com um exaustivo marketing político e com maior tempo de exposição na tv (3 minutos e 6 segundos do tucano contra 2 minutos e 35 segundos do atual prefeito - dados do Tre paulista) o PSDB ganha a prefeitura no primeiro turno.

Muito mais importante que entender os ganhos e refluxos dos partidos políticos é salutar refletir a partir desses aspectos como o nosso sistema eleitoral é fragilizado. E isso não se dá no aspecto institucional, mas sim na mentalidade do eleitorado, o qual sem uma sólida posição partidária ou identificação com programas governamentais vota induzido pelas pressões das pesquisas eleitorais e marketing político freneticamente utilizado na esfera pública.  

É o velho assunto da sociologia política brasileira: com uma sociedade civil distante de um profundo debate de ideias, com uma mídia unilateral politicamente e a ausência de legendas "ideologicamente" fortes não temos uma renovação política necessária para vencer as antigas práticas de domínio eleitoral. E mais, tudo isso demonstra como o brasileiro vota "mal" ao elencar fatores politicamente secundários como motivos para eleger os seus prefeitos. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Os Equívocos na Reforma Educacional do Governo Temer

                                            





 Os Equívocos na Reforma Educacional do Governo Temer

por Dennis de Oliveira Santos

O projeto de lei defendido pelo governo Temer, no qual se pensa em diminuir o número de disciplinas ofertadas no ensino médio e “enxuga-las” em grandes áreas é um retrocesso para o ensino público brasileiro. O primeiro equivoco que assinala isso é que essa intenção governamental fere os princípios constitucionais e os existentes na LDB (lei de diretrizes e bases da educação) sobre o tema. Isso porque os dois dispositivos jurídicos definem que as escolas no ensino médio devem ser integradas à educação profissional via uma leitura de mundo interdisciplinar nas diversas áreas do conhecimento.

De acordo com a Constituição e os mais modernos parâmetros pedagógicos sobre o assunto, o aluno deve, minimamente, ao final do ensino médio ser capaz de elaborar uma leitura das questões sociais ao seu redor ao mesmo tempo que saiba utilizar os conhecimentos das ciências exatas para compreender os fenômenos físicos e químicos do meio ambiente. É uma visão pluralista e integrada na qual o jovem tenha conhecimentos básicos nas várias áreas do saber para ser um cidadão atuante em sua sociedade e saiba compreender problemas de diversas “naturezas”.

Apesar disso, nessa reforma proposta, o aluno irá para o ensino superior com uma formação deficitária. Pois, se ele optar por estudar ciências humanas terá um grande desconhecimento das áreas de química e física, por exemplo. Optando pelas ciências exatas, não saberá fazer uma leitura de questões sociais em geral e como funciona as estruturas políticas.

A perda educacional é terrível, pois o projeto aí proposto se parece muito com o que foi praticado no início do século XX – época em que as pessoas eram meramente formadas para o mercado de trabalho, de forma tecnicista, com baixa capacidade crítica e de participação nos assuntos públicos importantes para o país. Se queremos uma sociedade cada vez mais democrática e participativa na “coisa pública”, vamos então justamente retirar os instrumentos necessários para isso? Esse projeto de lei quer instituir a educação enquanto mero preparo para o campo de trabalho e tirar da sociedade a possibilidade plural dela interpretar e compreender o mundo em diversas áreas do saber.

Esse modelo é inspirado nos Estados Unidos, o qual se sabe amplamente que é um sistema bastante ineficaz comparado com o europeu. O norte americano médio é extremamente atávico em relação ao mundo justamente por esse "enxugamento de matérias". A população norte americana tem grande dificuldade quando o assunto é entender as relações culturais fora de seu país – muitas vezes simplesmente desconhecem, reproduzem preconceitos sobre culturais alheias por desconhecimento das mesmas. É desse ambiente que se gera uma massa de manobra a qual aceita que seu governo estabeleca conflitos internacionais entre diversos povos.  

Os choques culturais como do Oriente Médio e guerras como a do Iraque nascem do desconhecimento dessas realidades sociais por parte dos filhos do Tio Sam. Se eles são pragmaticamente bem preparados para o campo de trabalho, o mesmo não acontece no tocante a cidadania e valores humanitários em geral. É necessária uma educação que equilibre essas duas facetas das necessidades humanas.

Outro equívoco levantado é o fato de que o adolescente está numa fase da vida que não tem maturidade suficiente para escolher disciplinas e curso de graduação, muitas vezes só escolhe o curso universitário quando encerra o ensino médio. Para que isso seja operacionalizado seria necessário que as instituições educacionais tivessem o apoio de psicólogos, os quais auxiliariam os jovens rumo a formação profissional. Em tempos políticos que o governo congela por anos os investimentos nas áreas públicas e repete um mantra neoliberal de corte com gastos sociais dificilmente esse suporte profissional será instituído pelo poder executivo.   

O ensino integral é de fato positivo, mas não há estrutura alguma em nossas escolas para efetivar esta ação. E mais, da forma que está sendo sugerido estas mudanças vão aprofundar o abismo entre ricos e pobres – será mais um instrumento para a perpetuação da desigualdade social. Pois hoje se sabe que adolescentes pobres usam o contra turno escolar para trabalharem (mesmo que de modo informal) para complementarem a renda familiar. Para enxergar isso mais de perto basta fazer um perfil dos alunos das escolas públicas durante o período noturno.


O que pode acontecer nesse contexto? Ao invés de ser elaborado um sistema de ensino que zele pela universalização desse direito fundamental, teremos um sistema com maior evasão escolar por parte das camadas mais baixas por questões financeiras. Enquanto do outro lado será perpetuado a lógica do “estudante profissional” - na qual adolescentes de classe média tendo todas as benesses de instituições privadas e dois turnos do dia para se dedicarem ao ensino continuarão ocupando as vagas dos cursos universitários que deveriam ser oferecidas aos mais humildes.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

As Relações Entre Indivíduo e Sociedade a partir das Teorias Sociológicas

(Resumos e notas de aulas acerca das teorias da sociologia clássica e contemporânea)

por Dennis de Oliveira Santos



1. O pensamento sociológico em todo o seu trajeto histórico preocupou-se em desenvolver matrizes de pensamento que com base empírica gerassem um modelo explicativo na compreensão de como a sociedade influencia o comportamento individual dos sujeitos, como também do modo contrário. Isso é perceptível tanto nas teorias clássicas (Marx, Durkheim e Weber), como também em sociólogos contemporâneos (Pierre Bourdieu e Norbert Elias).

2. Socialização é a assimilação de hábitos característicos do seu grupo social, todo o processo através do qual um indivíduo se torna membro funcional de uma comunidade, assimilando a cultura que lhe é própria. O processo de socialização inicia-se após o nascimento, e através, primeiramente, da família ou outros agentes próximos da escola, dos meios de comunicação de massas e dos grupos de referência.

3. De caráter privado – família De caráter público – escola, estado, cultura, religião, tribos urbanas, etc. De caráter público e privado – meios de comunicação (internet, jornais, televisão, rádio). Os comportamentos sociais são mutáveis, estão em constante transformação a todo instante.

4.  Análise das classes sociais: a divisão da sociedade em classes é uma decorrência de determinadas relações sociais de produção constituídas no nível da estrutura social.  Configuração básica das classes sociais: 1) proprietários dos meios de produção (burguesia) 2) Trabalhadores, não proprietários (proletários) O homem se distingue dos outros animais pela capacidade de organizar o seu trabalho (atividades).

5.  Marx aponta que o Estado surge na história como o resultado da divisão da sociedade em classes sociais.  O Estado surge como instituição que visa minimizar os conflitos de classe, mas no sistema capitalista acaba favorecendo a classe burguesa.  Os indivíduos devem ser compreendidos no contexto social da classe que eles estão interligados.

6.  Método de análise desenvolvido: parte da sociedade para os indivíduos sociedade preponderante e transcendente. FATO SOCIAL “toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando existência própria, independente de manifestações individuais”.

7.  Características dos fatos sociais: Exterioridade e coercitivos.  Primeiro conceito trabalhado por Durkheim é o conceito de consciência coletiva esta entendida como: “o conjunto das crenças dos sentimentos comuns à média dos membros de uma sociedade. Forma um sistema determinado, que tem vida própria.”

8.  A consciência individual é aquela que especifica os indivíduos uns em relação aos outros, são as características intrínsecas da personalidade individual.  A consciência coletiva só existe em função dos sentimentos e crenças presentes nas consciências individuais, mas se distingue, pelo menos analiticamente, destas últimas, pois evolui segundo suas próprias leis e não é apenas a expressão ou o efeito das consciências individuais

9. Psiqué (consciência individual) 9 Personalidade Idéias comuns a todas consciências individuais Consciência coletiva Social e Geral

10 Sociedade funcionando através de Leis e Regras pré- estabelecidas Problemas sociais Mudam de origem Econômica para Crise Moral Anomia Problemas sociais originados pela ausência de regras Organização social Normas

11.  Direito e sistema carcerário: sua função não é só punitiva, mas restitutiva, educacional.  O conceito de anomia expressa a crise, a perda de efetividade ou o desmoronamento das normas e dos valores vigentes em uma sociedade, como consequência do seu rápido e acelerado desenvolvimento econômico e de suas profundas alterações sociais que debilitam a consciência coletiva, entendida como uma espécie de poder regulador necessário que serve de moderador aos ilimitados apetites e expectativas individuais.

12. Objeto de análise: ação social: conduta a qual o próprio agente associa um sentido. É orientada pelo agente conforme a conduta de outros e que transcorre em consonância com isso.  implica alguma ação significativa visando outro indivíduo. Parte da análise do indivíduo para a sociedade.

13.  Tipos de ação social: 1) Ação tradicional: determinada por um costume ou hábito arraigado; 2) Ação afetiva: determinada por afetos ou estados sentimentais; 3) Ação racional com relação a valores: determinada pela crença consistente em um determinado valor considerado importante, independente do êxito deste na realidade; 4) Ação racional com relação a fins: determinada pelo cálculo racional que coloca os fins e organiza os meios necessários para a consecução deste fim.

14.  Marx: indivíduos inseridos em classes sociais, por um fator econômico.  Durkheim: o fundamental é a sociedade e a integração do indivíduos nela.  Weber: indivíduos e suas ações sociais são os elementos constitutivos da sociedade.

15.  Autores como Bourdieu e Elias, procuram analisar a relação indivíduo e sociedade, e procuram integrar ações e instituições fundamentais.

16.  O indivíduo e sociedade estão intimamente interligados, pois a existência e explicação de ambos só pode ser feita neste contexto.  Idéia de fluxo contínuo, que permite o entendimento dentro deste contexto e configuração.  No grupo social é assim: não há separação entre indivíduo e sociedade, tudo deve ser entendido de acordo com o contexto; caso contrário, perde-se a dinâmica da realidade e o poder de entendimento.

17.  Habitus, em Elias é segunda natureza, saber social incorporado durante nossa vida em sociedade.  O habitus liga o indivíduo a sociedade.  Ele se apresenta como (primário e secundário) – sendo que o primeiro é aprendido nos primeiros anos de vida e nunca é abandonado pelo indivíduo. Já o segundo são os valores que vai se adquirindo ao longo da vida e se mescla com o primeiro.


18.  Habitus é estruturado por meio das instituições sociais dos agentes (família e escola).  Habitus primário- mais duradouro, mas não congelado.  Habitus secundário- contato com pessoas de outros universos de vida. Não contrário,mas indissociável daquele.

sábado, 2 de julho de 2016

Breves Considerações Sobre Socialismo e Democracia no Governo de Salvador Allende



Breves Considerações Sobre Socialismo e Democracia no Governo de Salvador Allende

por Dennis de Oliveira Santos


Em tempos de confrontos políticos é sempre relevante reafirmar nossas próprias convicções. E para fazer isso lembro o nome da maior referência política a mim (ao lado de Leonel Brizola e Antônio Gramsci): falo de Salvador Allende. O que me chama atenção no presidente chileno é que seu governo demonstrou ser possível o vínculo entre socialismo e democracia, fato miticamente propagando como impossível por parte de setores conservadores (mas que não conhecem bem a história). Em seu país, o socialismo foi construído no respeito pelas liberdades democráticas, individuais, coletivas e aos preceitos constitucionais. Allende foi o primeiro presidente socialista eleito democraticamente. Ele foi um revolucionário atípico: acreditava na via eleitoral da democracia representativa e considerava ser possível instaurar o socialismo dentro do sistema político então vigente em seu país. Por isso digo que pode-se ir além do modelo das guerrilhas armadas e ditaduras ao instituir um sistema político em nome dos mais necessitados e obedecendo as características democráticas.


domingo, 15 de maio de 2016

O Impeachment da Presidente Dilma na Câmara dos Deputados

O Impeachment da Presidente Dilma na Câmara dos Deputados

por Dennis de Oliveira Santos

Acabo de chegar da Esplanada dos Ministérios desapontado com o resultado de um processo de deposição governamental que não seguiu os ritos democráticos legais e jurídicos, mas coerente com meus valores de justiça social. Não estava ali por uma mera disputa partidária (até porque não sou petista, sou de esquerda), mas sim por não compactuar com uma retórica evasiva e espúria que destituíram em tempos passados, governos que tinham projetos desenvolvimentistas e de correção das desigualdades sociais (nosso maior problema). Não queria me calar diante de um momento factício de nossa história e permitir o que houve com Goulart – presidente que trazendo ascensão as classes subalternas foi destituído a força e de forma irracional de seu poder legitimamente conquistado. Infelizmente o ciclo da história vai se repetindo, mais uma vez para conter os avanços da classe trabalhadora. Estava ali nessa noite, de vermelho, com a bandeira do país em nome dos negros que hoje estudam em universidades públicas, em nome dos índios que lutam pela posse de suas terras contra o agronegócio, em nome da população carente que hoje tem a sua casa própria, em nome da criação de universidades públicas e cursos técnicos para os jovens, em nome da soberania nacional contra o vil aniquilamento neoliberal de nossos serviços e riquezas públicas, em nome dos gays que hoje tem o direito de se casarem. E isso meus caros inimigos, não é uma mera posição ideológica fruto de um “esquerdopata”, mas sim um princípio da nossa própria Carta Magna, a qual tem o objetivo de construir uma sociedade civilizada, democrática e socialmente justa através da diminuição das desigualdades sociais e regionais. Direitos se inclui o máximo de pessoas, principalmente os marginalizados e não se exclui como muitos moralistas/conservadoras julgam com a “santa” benção de um Jesus que se existir deverá está com vergonha de seu nome excessivamente e indevidamente ter sido usado num espaço laico. Os oposicionistas dizem que após o impeachment, haverá uma trégua política. Difícil acreditar nessa possibilidade quando falta legitimidade aos que serão “eleitos” pela manobra, quando se sabe que o cancro corrupção emana em maior escala do nosso Poder Legislativo. As elites financeiras, políticas e midiáticas irão trabalhar para retirar vários direitos trabalhistas conquistados duramente no processo de redemocratização do país – empresas de telefonia minando o acesso a internet, flexibilização do trabalho, menos investimentos públicos em programas sociais, etc. A perda para o povo que se segue é bastante temerosa. Saio desse evento sabendo que a elite venceu, mas sereno e coerente ao saber que ”combati o bom combate” contra quem e aquilo que é contra o meu povo e país.



terça-feira, 2 de abril de 2013

A Sociologia de Augusto Comte



por Dennis de Oliveira Santos

            Comte viveu na França durante o século XIX, quando a burguesia ascendeu ao poder. E nesse contexto, ele tomou partido da parcela mais conservadora dessa burguesia. Desse modo, sua proposta é de uma filosofia e de reforma das ciências que tem como objetivo sustentar a ideologia dessa classe social. Ele pretendeu ser o fundador de uma nova ciência – a sociologia.
            Ele desenvolve um novo espírito a partir do século XIX em vários ramos do conhecimento, e que ele próprio acreditava estar trazendo para o ultimo ramo do conhecimento – a sociologia; visto como fruto de uma longa historia do desenvolvimento do pensamento. Tal desenvolvimento expressaria uma lei necessária de transformação do espírito humano, que é chamado por Comte de lei dos três estados, no qual o pensamento humano passaria por três momentos ou formas do conhecimento.
            O primeiro momento seria o teológico, dirigindo as investigações para a natureza intima dos seres, apresentando os fenômenos como produzidos pela ação direta e continua de agentes sobrenaturais; os quais são utilizados para se explicar as aparentes anomalias do universo. O segundo momento seria o estado metafísico, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados.
            Por fim, o estado positivo, o qual reconhece a impossibilidade de se obter noções absolutas. Graças ao uso combinado do raciocínio e a observação, a explicação dos fatos são reduzidos a termos reais, se resume na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo numero o progresso da ciência tende cada vez mais a diminuir.
            A lei dos três estados expressa uma concepção da historia, na qual se verifica uma filosofia e um espírito positivo na noção de que este estado é decorrência de uma evolução histórica. Dessa forma, a historia é vista como conjunto de fases imóveis em si mesmas, em que cada estagio é superior ao anterior. A historia transforma-se num desenrolar, guiada por dois princípios básicos: o principio da ordem (de uma transformação ordenada e ordeira, sem transformações violentas e num fluir continuo) e do progresso (uma transformação que leva a melhoramentos lineares e cumulativos).
            Ao discutir o conhecimento no estagio positivo, Comte erige o conhecimento que é cientifico como conhecimento real, útil, preciso, positivo; o qual o homem deve buscar para interferir na natureza em seu beneficio. E ele encontra esses fundamentos quando alega que o conhecimento cientifico parte do real, dos fatos, apresentam-se ao homem tal como são. Portanto, o conhecimento cientifico baseia-se na observação dos fatos e nas relações entre fatos que são estabelecidos pelo raciocínio. O conhecimento cientifico reflete o modo como as leis operam na natureza, além disso, esse conhecimento é sempre certo, não se admitindo conjecturas. No entanto, Comte também afirma que esse conhecimento pode ser relativo.
            A noção de ordem remete a noção de organização, e é nesse sentido que deve-se compreender o pensamento positivo; este se opõe ao negativo (à critica) porque busca não destruir, mas organizar. Além disso, a natureza é composta por classes de fenômenos ordenados de forma imutável e inexorável e cabe apenas a ciência apreender e descrever essa ordem. Comte também estabelece uma classificação das ciências que obedece ao grau de simplicidade e generalidade do objeto a que cada ciência fundamental se refere.
            Para Comte o desenvolvimento da humanidade resume-se no desenvolvimento do espírito, do conhecimento e no desenvolvimento das estruturas da sociedade, que se mantém fundamentalmente inalteradas. Nesse ambiente, a sociologia caracteriza-se pela preocupação em descobrir as leis que governam a sociedade, e não pela preocupação com a sua transformação. Qualquer insubordinação ao poder corrompe uma ordem pré-estabelecida.


Os Estereótipos do Negro na Literatura Brasileira do Século XIX




por Dennis de Oliveira Santos

No Brasil, as classes dominantes, desde os primórdios da colonização portuguesa, efetuam mecanismos que exploram a pauperização das classes subalternas em nome da expansão capitalista. Nesse contexto, apresenta-se uma questão ímpar acerca da identidade da população brasileira, a qual pode ser vista na representação literária sobre os negros (grupo étnico socialmente marginalizado): qual é a imagem do negro postulada na produção literária do século XIX e suas conseqüências sociais?
As imagens confeccionadas acerca da identidade negra nas obras literárias desta época eram construídas a partir dos interesses da elite brasileira. Elas consistiam num tendencioso racismo com a finalidade de forjar determinadas concepções a respeito do comportamento social dos negros - concepções que desenvolviam centras estereotipações acerca desta minoria étnica.  
·                          A primeira estereotipação nesse período nas produções literárias é encontrada no romantismo, na peça teatral O Demônio Familiar de José de Alencar. Nesta obra (ALENCAR, 2003), o literato cearense desenvolveu um racismo em seu molde mais primitivo, se assemelhando as posições de Hegel e Shakespeare. É importante detalhar, que em suas duas principais obras, que são os romances indianistas Iracema e O Guarani, o escritor nutrido por posições políticas anti-abolicionistas e visando criar uma literatura onde as personagens seriam provenientes das “raças que geraram este país”, o negro é excluído intencionalmente. Marginalizado do foco principal, onde apenas o índio e o português participam, é postulado a concepção do negro ruim. A inferioridade social seria intrínseca aos negros, estes, possuiriam comportamentos amorais e promiscuidades sexuais “sem freios”, o que testificaria uma crueldade nativa e uma feiúra rude, pois o negro seria ruim por natureza e sub-humano.
·                          No romance naturalista O Mulato de Aluísio Azevedo, se faz presente à concepção da má mistura entre as raças. O mulato seria uma degeneração racial por ser fruto da indevida relação social entre negros e brancos, idéia que ganhava mais adeptos com o apoio de teorias cientificistas como, por exemplo, o darwinismo social, que também condenava a mistura entre raças.
·                          Existe também a visão do embranquecimento, tendência muito presente na obra de Cruz e Sousa. Esta perspectiva tendia a “embranquecer” os negros e mulatos que pretendiam ter algum tipo de ascensão social, como são a própria obra e vida do escritor simbolista. A concepção funda-se na idéia de que para o negro ou mestiço ter ascendência social, ser reconhecido pelas classes cultas e economicamente ativas, precisava se adequar e internalizar os costumes provenientes da cultura desta camada social. O que teve como exemplo à obra do literato mestiço Cruz e Souza, que ao longo de toda a sua obra traça uma densa valorização a cor branca (BASTIDE, 1983).
A partir destas esteriotipaçoes acerca do negro no percurso histórico da formação ideológica emitida pela literatura temos por conseqüência social a marginalização dos negros na participação da formação cultural do país e o forjamento de imagens que retratam a organização social desta classe historicamente marginalizada.
A marginalização dos negros na participação cultural do país, que no século XIX tentavam suprimir suas crenças e outros tipos de manifestações, deixou para a posteridade um grande abismo no que condiz a exclusão social. O pensamento dominante das elites cultivou ao longo dos séculos a imagem ideológica do povo brasileiro como uma massa “pacífica” e “ordeira” frente às injustiças que sofrem (CHAUÍ, 1986). Os mais afortunados na pirâmide social brasileira tinham atitudes e formas de agir que espelhavam uma ideologia com viés racista; que além de marginalizar a participação social das camadas populares (a maioria de negros-escravos), criava uma imagem que distorcia as capacidades de reação por parte deste segmento populacional.
Sendo assim, a produção cultural oriunda dos letrados da época, era porta voz das categorias socialmente dominantes, tendendo a forjar uma ideologia que mascarava as contradições do sistema escravocrata e ignorava as reações populares frente ao ambiente social hostil a este segmento populacional (FERNANDES, 1978).
Detecta-se como a formação ideológica acerca desta etnia marginalizada, construída pelas elites europeizadas, ocultou as condições de vida e reação social destes marginalizados. Formação social que construiu para a posteridade, o mito da passividade do povo brasileiro, o que dificulta ainda mais a emancipação definitiva do país em termos de exclusão social.

Referências Bibliográficas:

ALENCAR, José de. O Demônio Familiar. São Paulo: Martin Claret, 2003.

BASTIDE, Roger. A Poesia Afro-brasileira. São Paulo: Perspectiva, 1983.

CHAUÍ, Marilena. Conformismo e Resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1986.

FERNANDES, Florestan. A Integração do Negro na Sociedade de Classes (Volume 1). 3ed. São Paulo: Ática, 1978.




domingo, 28 de outubro de 2012

O Ganho e Perda dos Partidos Políticos nas Eleições Municipais 2012

por Dennis de Oliveira Santos

Pode-se concluir que as alianças e as hegemonias conquistadas nos últimos anos tiveram poucas alterações, na verdade só foram reafirmadas nessas disputas municipais...

O PT tendo conquistado mais de 400 municípios e sendo o terceiro partido com maior número de prefeituras permanece acomodado como grande partido do país que conquistou essa hegemonia nos últimos anos. Acontecimento que se deve a conjuntura nacional da estabilidade econômica do governo Dilma (com altos índices de aprovação popular) e o importante papel desempenhado pelo carismático cabo eleitoral Lula, o qual serviu de apoio aos principais candidatos petistas nas capitais. Contrariando o sensacionalismo midiático, o caso mensalão teve um peso pífio nessas eleições – pouco influenciou em vista de que a população votou tendo em mente o bom momento econômico que ocorre no país e das políticas públicas que atende a ela ao invés de prestar atenção nos casos de corrupção que estão sendo julgados.

O PSDB permanecerá sendo a legenda de voz mais expressiva em oposição a hegemonia petista ao ter o segundo maior índice de aprovação de prefeitos. Destaque para o grande número de vereadores eleitos na região Sudeste, o qual terá peso determinante na gestão de cidades mesmo que sejam governadas pelo lado oposto. Os tucanos também tiveram um bom desempenho no Nordeste, sendo que em Recife, Teresina, Maceió e João Pessoa seus candidatos venceram ou foram para a disputa do segundo turno. Neste cenário percebe-se também um recuo no Ceará, onde a histórica hegemonia do cacique Tasso Jereissati teve queda ao não conseguir eleger Marcos Cals e cedendo espaço aos irmãos Gomes na região. Além disso, em São Paulo Serra vai ao segundo turnom, mas bastante desgastado ao representar para o eleitorado o continuísmo de uma prefeitura atual bastante desgastada.

O PMDB retoma o seu protagonismo de grande partido em eleições municipais ao se agigantar nas disputas regionais e torna-se o grupo político que mais conquistou prefeituras no primeiro turno – 724 até o momento. Grande aliado do PT no Planalto, sua penetração nacional é majoritária e servirá de importantíssima base aliada ao atual governo para as próximas eleições.

Destaque para os ganhos obtidos pelo PSB, o qual preconizou a novidade desta eleição. E aí destaca-se dois aspectos para o futuro político próximo do país...
1) Com mais prefeituras na mão o partido vai ter um bom poder de barganha para conquistar mais ministérios e espaço no governo de Dilma, dando prosseguimento à aliança PT-PSB para o quadro nacional.
2) Claramente o nome de Eduardo Campos de Pernambuco vem ganhando projeção nacional para um futuro como ministro, tendo sigo elogiado até por opositores tucanos em sua gestão. Ele conseguiu demonstrar a capacidade de levar seu nome para além das fronteiras do estado que governa, exceto para Minas, onde teve que aceitar uma aliança com Aécio.

O DEM sofreu uma grande derrota nessas eleições, está hoje quase reduzido a pó - especialmente com a pulverização do campo da direita conservadora no Brasil. Parte desta migra rapidamente para o PP, que desde Maluf sabe como transitar nas esferas de extração de recursos públicos e fazer alianças com o grupo de Dilma. Hoje, a sigla luta para manter um vínculo com o mundo do agrobusiness, mas diante do eleitorado perdeu muita força. Continua respirando em poucas capitais, como é o caso de Aracajú e Salvador.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O PROGRAMA DE PRODUÇÃO DE BIODIESEL EM QUIXERAMOBIM: POLÍTICA PÚBLICA DE EQUILÍBRIO ECOLÓGICO E INCLUSÃO SOCIAL

por Dennis de Oliveira Santos



Como a produção de biodiesel num município do interior brasileiro pode contribuir para o equilíbrio ecológico e a inclusão social de segmentos sociais empobrecidos do semi-árido nordestino? Analisar de que forma a produção de biodiesel, por exemplo, no interior cearense tem impactos sobre a redução da poluição atmosférica é de suma relevância para trazer respostas empíricas para esse tema. Em outros termos, qual a importância da fabricação de agroenérgia numa cidade como Quixeramobim para a diminuição do uso de petróleo e óleo diesel (geradores de gases poluentes) no setor automobilístico?

Compreender a potencialidade do programa de biodiesel na geração de emprego e renda para pequenos agricultores do semi-árido nordestino. Quer dizer, como essa política pública pode gerar a inclusão social de amplos segmentos empobrecidos do meio rural? É possível vislumbrar nesse programa de alternativa energética uma política descentralizada, na qual se valorize o envolvimento de atores sociais (sindicatos, associação de agricultores, movimentos sociais em geral) na implantação e decisões dessa política pública?

Nos últimos anos, o tema Aquecimento Global alcançou um lugar privilegiado nas reuniões e debates de dirigentes das grandes nações mundiais. Conseqüentemente, as discussões em torno de seus efeitos e possíveis soluções tornaram-se mais densas. Há um consenso, entre diversos cientistas, de que os efeitos da agressão ambiental provocada pelo homem vêm ameaçando a sobrevivência no planeta.
Envolta por uma camada cada vez mais espessa de dióxido de carbono (CO2) e de outros gases igualmente tóxicos, emitidos por fábricas, indústrias, automóveis e de outros agentes poluidores, a Terra vem passando por um fenômeno climático de larga extensão, que tem implicado no aumento da temperatura média terrestre nos últimos 150 anos.

Nesse sentido, analisar as políticas públicas empreendidas pelo Governo Federal Brasileiro, em conjunto com governos estaduais e setores da sociedade civil, possibilita uma relevante fonte de conhecimento acadêmico acerca dessa recente postura que vem surgindo por parte do Estado em relação ao desequilíbrio ecológico.
Desse modo, a busca de uma matriz energética “limpa”, não poluente, coloca o Brasil em vantagem por suas dimensões continentais e quantidade de terras agricultáveis. A partir dessa perspectiva, o Governo Federal lançou no ano de 2004, o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB). Essa política pública justifica-se pela crescente demanda por combustíveis de fontes renováveis e no potencial brasileiro para atender parte expressiva dessas necessidades, gerando emprego e renda na agricultura familiar e contribuindo para melhoria das condições ambientais no país (BRASIL, 03/11/2007).

Pelas suas condições de clima e solo, o país possui grande potencial de produção de biomassa. A agregação de valor à produção primária representa importante vantagem comparativa para o Brasil. Assim, o biodiesel é um promissor produto dentre essas possibilidades, pois a demanda de energia tende a aumentar diante da necessidade mundial de buscar novas fontes de energia que não agridam o meio ambiente.
Assim, o Governo vislumbrou a possibilidade de engajar agricultores familiares mais pobres do país na cadeia produtiva de biodiesel. Isso foi efetuado mediante estímulos tributários às empresas que adquirem a matéria prima (mamona, girassol, etc) produzidas por esses segmentos. Para levar essa estratégia governamental de agroenergia aos usuários de combustível, a mistura do biodiesel ao diesel de petróleo, em proporções crescentes nos próximos anos, foi tomada obrigatória por força de lei. Desse modo, o programa de biodiesel busca consolidar o equilíbrio ecológico junto à inserção social de camadas pobres no setor produtivo.

O Biodiesel é o biocombustível derivado de biomassa renovável (mamona, cana de açúcar, girassol, etc) para uso em motores a combustão interna com ignição por compressão ou, conforme regulamento, para outro tipo de geração de energia, que possa contribuir parcial ou totalmente para diminuição do uso de combustíveis de origem fóssil (BRASIL, 03/11/2007). Esse programa deverá estar aderente à política ambiental brasileira e em perfeita integração com as disposições do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Quioto, aumentando a utilização de fontes renováveis, com menos emissão de gases de efeito estufa e contribuindo com a mitigação deste efeito por meio da diminuição do carbono. Além disso, essa política pública deve constituir-se em um vetor da interiorização de desenvolvimento, da inclusão social, da redução das disparidades regionais, em especial pela agregação de valor na cadeia produtiva do agronegócio (BRASIL, 07/11/2007).

Porém, para que esse programa tenha sucesso, o Governo Federal vem procurando estimular iniciativas que impulsionem a produção e o uso do biodiesel nas demais esferas governamentais (Estados e Municípios). Nesse sentido, a partir da parceria entre as três esferas públicas, no ano de 2006, o Ceará começou a cultivar mamona para produção industrial de biodiesel. O programa piloto foi iniciado no município de Quixeramobim, em uma área de 70 hectares, e que gera 60 empregos diretos. Atualmente são extraídos 350 litros de biodiesel por dia, mas estima-se que a partir do ano de 2008, serão 800 litros diários a partir da usina quixeramobense, que fica a 224 quilômetros da capital cearense (ESTADO DO CEARÁ, 07/11/2007).

Articulado a partir do Governo Federal, o programa envolve o governo estadual, a prefeitura do município e um consórcio de empresas termoelétricas. Até agora já foi investido R$ 1,5 milhão no cultivo da mamona. E para o ano de 2008, o governo estadual anunciou que pretende investir cerca de R$ 11 milhões para incentivar pequenos agricultores de mamona nas cidades de Crateús, Quixadá, Quixeramobim, Pedra Branca e Santa Quitéria.
Diante de toda a diretriz do programa e dos incentivos financeiros governamentais, observando o projeto piloto em Quixeramobim, lançam-se os seguintes questionamentos acerca do tema:
* Qual a importância da fabricação de agroenérgia em Quixeramobim para a diminuição do uso de petróleo e óleo diesel (geradores de gases poluentes) no setor automobilístico?
* Como essa política pública pode gerar a inclusão social de amplos segmentos empobrecidos do meio rural? É possível vislumbrar nesse programa de alternativa energética uma política descentralizada, na qual se valorize o envolvimento de atores sociais (sindicatos, associação de agricultores, movimentos sociais em geral) na implantação e decisões dessa política pública?

O questionamento ecológico é fomentado pela estratégia do uso de biodiesel pelo Governo Federal. Pois a adição de biomassa na gasolina tem o efeito de oxigenar o combustível e melhorar sua combustão, levando a redução dos gases emitidos. Nesse contexto, o Brasil é pioneiro no uso deste produto como combustível em veículos automotores: o país é o maior usuário mundial de biodiesel e o volume de consumo anual tem oscilado em torno de 12,0 bilhões de litros.
Assim, nos próximos oito anos, o programa de biodiesel tem a finalidade de reduzir drasticamente os gases poluentes oriundos dos combustíveis tradicionais, ao utilizar a agroenergia nos novos veículos existentes no mercado do tipo “combustível flexível” (BRASIL, 07/11/2007).

Já a questão acerca da inclusão social é alimentada pelo fato do grande potencial de geração de emprego e renda existente no semi-árido brasileiro. Estima-se que, no Nordeste, que com 6% de participação da agricultura familiar na produção de biodiesel haverá geração de 138.507 empregos no campo. A renda com esse tipo de atividade irá dobrar o rendimento econômico dos trabalhadores envolvidos no programa: de 97,00 reais, cada família passará a obter 333,13 reais por mês com a produção de agroenergia na região nordestina (BRASIL, 06/11/2007).

Além desses aspectos sociais, a política pública de biodiesel abre a possibilidade de que a população atendida possa ter a oportunidade de influir de modo decisório nas ações e intuitos desse programa. Pois desde a criação do projeto, setores organizados da sociedade civil como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), desempenharam um papel fundamental ao exigirem que o Governo Federal priorizasse nesse programa, ações que contemplassem a inclusão social de amplos segmentos empobrecidos do meio rural (BRASIL, 04/11/2007).

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SENNETT, Richard. O Declínio do Homem Público: as tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

Max Weber e a Objetividade do Conhecimento na Ciência Social

por Dennis de Oliveira Santos



Weber, que defende a idéia de que os valores não soam como objeto de demonstração cientifica, desenvolve uma discussão em que intenta estabelecer a distinção entre juízo de valor e conhecimento cientifico. A escolha de valores ou de fins é tarefa do homem pratico, não é tarefa da ciência. Enquanto o homem de ação toma posições valorativas, a ciência ensina a esse individuo o conhecimento dos fins que ele procura em suas ações.

Além do conhecimento dos juízos de valor, a ciência pode ainda avaliá-los criticamente. Portanto, a ciência pode oferecer conhecimentos sobre juízos de valor, propiciando ao homem condições de avaliá-lo criticamente. Lembrando que os julgamentos de valor são subjetivos, incoerentes no oficio cientifico. Com isso, o cientista social divide com Kant a concepção de que a idéia do homem é cindida em dois mundos. O alcance do conhecimento exige do cientista uma adequação neutralidade axiológica, mas isso não é o suficiente para garantir a objetividade do conhecimento. Essa objetividade também exige a observação de procedimentos metodológicos.

O sociólogo alemão também desaprova o uso metodológico do materialismo histórico e do monis naturalista no interior das ciências da cultura. As generalidades conceituais provenientes desses métodos deixam de fora da analise as individualidades históricas que não podem ser subsumidos as leis gerais. Adiante, discute-se acerca da significação dos fenômenos sociais. O momento subjetivo na produção do conhecimento não tem nada a ver com os julgamentos de valor do pesquisador; o cientista social pode investigar valores sem glorificá-los ou condená-los. Neste caso, o momento subjetivo não tem nenhum papel a desempenhar na construção do conhecimento. A relação e a comprovação da verdade enunciada teoricamente são dois momentos distintos.

Por ultimo se discute sobre a realidade e método das ciências sociais. A resposta a esse assunto é esclarecida por Weber a partir da construção dos tipos ideais. O tipo ideal é um poderoso instrumento de investigação da realidade. Sua função é a de ordenar a realidade e torná-la acessível a pesquisa. Como instrumento de conhecimento, esse tipo ideal tem uma função puramente cognitiva e heurística.

Crescimento da Violência Urbana no Ano de 2004 nas Metrópoles Brasileiras

por Dennis de Oliveira Santos



A sociedade brasileira convive com altos índices de criminalidade urbana, instituindo um comportamento de insegurança e incapacidade dentre o seio da sociedade. Nas últimas décadas este índice elevou de forma grotesca, sendo incorporada pela mega corporação do crime organizado. No entanto, a raiz da violência não é apenas uma questão de segurança publica, mas sim, um fruto de diversos elementos.

De fato o crescimento desta violência está atrelado a uma serie de fatores sociológicos que o precede. Nota-se, por exemplo, que mais da metade da população brasileira que tem algum oficio ganha no máximo dois salários mínimos, gerando uma quantificação exorbitante de indivíduos que sobrevivem à margem da miséria.

A reprodução do capital é outro fator impar para o fortalecimento da criminalidade em nossas metrópoles. Associados aos recursos do Estado e setores industriais, poucos projetos de oportunidades de trabalho são gerados aos assalariados. Ainda se somam metas mínimas de nossos governantes com a ausência de qualificação de nossa população. Desencadeando uma serie de pessoas sem emprego, que nos pequenos delitos busca uma fonte de subsistência.

A acumulação de bens por uma pequena parcela constrói uma imensa pirâmide de desigualdade social. No topo desta, poucos usufruem um bem estar social. E a esmagadora maioria, ao pé desta pirâmide, está a mercê de toda a falta de fatores primordiais para sua estruturação social.

O nível educacional ao decorrer dos tempos contribuiu a desolação da nossa população. Com professores maus pagos e má formada, com uma defasagem de nosso sistema educacional, constitui um povo de frágil organização social. Que ao invés de criar sérios sindicatos que lutem por seus direitos, provoca inúmeros jovens prematuramente iniciados na marginalidade pela ausência de uma boa educação.

A ausência de totalidade do cumprimento das leis instituídas pelo Estado é outro fator bastante pendente na escala de fatores desta criminalidade. Por exemplo, está na constituição Brasileira, no Art. 5º que, "Todos são iguais perante a lei e garantindo-se aos Brasileiros e aos estrangeiros residentes no país o direto a vida, a liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.", onde esses direitos quase que sempre não são respeitados. É verdade que no nosso país a segurança que é atribuída à polícia de um modo geral, que ameaça a sociedade e a democracia num regime democrático, onde se prega os direitos humanos e a cidadania, mas na maioria das vezes, a violência policial viola todos esses fundamentos e não executa devidamente tais leis institucionalizadas. Outro exemplo se constata no Art. 5º Inciso III diz: "Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante". Porém, dentre os países da América Latina, o Brasil tem o maior índice de óbitos em ocasião da criminalidade, onde o descaso ao presente e ameaçador crime organizado do tráfico de drogas, entorpecentes e de armas são os resultados da desorganização do Estado.

Outro alarmante fator é a violência domestica, onde as principais vitimas são mulheres entre 30 e 35 anos. Onde indivíduos com problemas alcoólicos ou financeiros, sem o devido senso de educação civil violentam suas esposas. Somado tais fatores à falta de cumprimento das leis e a carência de boas estruturas de delegacias femininas, ocasiona em 90% de retirada de queixas feitas por estas vitimas.

A falta da conscientização popular e a ausência do cumprimento dos Direitos Humanos contribuem a este estado generalizado de criminalidade, onde a tarefa mais urgente não é a sua declaração, mas sim, o de seu cumprimento. Esta frustração gera casos como o modelo carcerário, onde não se reeduca e tão pouco ressocializa o individuo. Diagnosticando um instrumento ineficiente que serve apenas para estigmatizar a área da segurança. Outros exemplos como direitos a minorias escritos nos Direitos Humanos também não são cumpridos nos país.

Aliado a todo este contexto social, a ausência do combate ao crime organizado ao longo das décadas agrava tal situação. Décadas anteriores eram menos alarmantes, roubos e assassinatos não eram efetuados diante de uma densa organização criminal. O Estado não alocou grandes verbas para combater o problema, era uma questão "invisível" para eles. Agora, há o "emprego" multinacional da industria do pó. Imensas favelas dominadas pelo poder do trafico, milhares de aliciados a uma "milícia" criminosa de Fernando Beira Mar e outros.

Aparentemente estamos num centro insolúvel desta violência urbana, a mercê de uma burocracia policial de desorganização e corrupção. Atrelados a diversos atrasos de nossos poderes judiciais, que muitas vezes se rende à corrupção oferecido por facções criminosas como PCC e o CV.

Um meio açoitado pela carência de soluções governamentais, e uma tardia consciência social. Tentando solucionar a questão com planos ineficazes como: combate ao crime pelo exercito, desarmamento da população civil, etc. Tais projetos não vão a raiz da problemática, de onde surge uma população amedrontada, que ao máximo, realiza apenas passeatas pela paz e cidadania.

Os dados demonstram total conseqüência desta questão, onde mais de 336 mil adolescentes com idades entre 15 e 19 anos vivem em regiões de elevado risco de contagio pela violência. Um país onde a taxa nacional de vitimas entre jovens de 15 a 24 anos passou, em duas décadas, de 30% para 52% por grupos de 100 mil indivíduos estudados.

Constata-se que a violência urbana é um complexo fenômeno social decorrente de diversos elementos, onde o que menos importa são as leis e os seus cumprimentos. Onde a população é vitima de propagandas enganosas em planos de supostas fáceis soluções, que submergi numa situação ainda mais caótica. Assim, procedendo a fronteira da morte e criminalidade para nossos habitantes, que com a falta de projetos firmes e uma serie de fatores sociais, forma um poder criminal em suas cidades. Poder que gera uma imensa guerrilha urbana e uma bandidagem que perdeu o respeito pela policia e outras autoridades do Estado.

Aprendizagem: Processo Contínuo

por Dennis de Oliveira Santos



(Discurso proferido na colação de grau do referido autor na graduação em Ciências Sociais pela Universidade de Fortaleza em janeiro de 2008).


Excelentíssimo Senhor Chanceler Airton Queiroz,
Magnífico Reitor da Universidade de Fortaleza, Professor Carlos Alberto Batista Mendes,
Ilustríssima senhora Yolanda Queiroz, Vice-Presidente da Fundação Edson Queiroz,
Excelentíssimas autoridades presentes,
Ilustríssimos professoras e professores,
Senhoras e senhores,
Caros formandos,

A reta final de uma graduação nos conduz ao ponto de partida. Qual de nós não recorda o peculiar momento da admissão no vestibular após longos dias de estudos sob pressões incomensuráveis; dos constantes esforços na tentativa de apreender as noções de diversos saberes? Todos os graduados desta noite passaram pela constante necessidade de expansão da base do aprendizado, muito além das fronteiras dos livros e conhecimentos específicos das respectivas áreas. Enfim, podemos dizer que nos capacitamos para atuarmos em nossa profissão, embora conscientes de que a aprendizagem é um processo contínuo. É chegada a hora de cruzarmos os muros acadêmicos e depararmos com o mundo repleto de complexidades.

O que mais nos marcou nesta árdua jornada? Decerto que teremos respostas bastantes díspares. O fato é que cada pequeno momento, cada uma dessas distantes lembranças simboliza e representa algo em nossas vidas. Estamos rodeados por símbolos neste mundo hipertextual: as formalidades desta cerimônia, o formato deste auditório que nos cerca, as vestimentas que nos ocultam, a música que entoa em nossos ouvidos, o tapete vermelho que nos conduz e o título que, em breve, nos será conferido. Símbolos que despertam diferentes emoções e sensações em cada um de nós. Diferentes foram as motivações que, entrelaçadas, balizaram nosso caminho rumo à profissão que abraçamos. Resta dizer que a cerimônia solene de hoje é símbolo final e inicial, chegada e partida, semente e fruto. É hora de celebrar. Após vários esforços e muitas renúncias atingimos o alvo desejado, porquanto alcançamos o objetivo a que nos propomos: somos bacharéis no tipo de conhecimento específico com o qual mais nos identificamos. Este título é algo que deve ser comemorado com a mais profunda e sincera alegria por todos nós. É, portanto, mais do que justo que celebremos com toda ênfase este momento.

No entanto, de que serve o título que estamos prestes a receber se não tivermos consciência da nossa eterna condição de aprendizes, se olvidarmos a eterna certeza de nossas dúvidas, se não evitarmos a arrogância intelectual, se não tivermos o espírito humilde para a busca incessante por novos conhecimentos e se não compartilharmos o saber adquirido? Em qualquer formação acadêmica, quatro ou cinco anos de graduação universitária já não são suficientes para atender às necessidades do voraz mercado e da rígida divisão do trabalho social. É preciso mais!

Muito mais que cavaleiros em cerimônia de investidura, muito mais que fazer parte de parcela privilegiada da população brasileira que tem acesso à educação, mais do que possuidores de condições potenciais para galgar uma situação financeira confortável, nós somos responsáveis moralmente por atender aos clamores e deveres que derivam do referido título acadêmico. A função do conhecimento adquirido em todos esses anos de estudo é servir a nossa comunidade em suas necessidades. Afinal, para que servem os instrumentos que dominamos, as informações teóricas que adquirimos, as técnicas metodológicas que aprendemos senão para serem utilizadas em prol da emancipação humana?

De fato, senhoras e senhores, nós temos uma função social. Somos mais do que meros operadores de instrumentos técnicos e teorias científicas. Temos nas mãos a possibilidade de transformação social, pois saber é poder. Somos instrumentos de transformação e, ao mesmo tempo, cidadãos – membros de uma categoria social constituída por pessoas devotadas à busca do bem comum e integrantes de uma comunidade nacional. Daí a emergência de nos conscientizarmos das responsabilidades que nos cabem no uso do conhecimento adquirido em nossas áreas. Devemos estar atentos para o fato de como esse saber será usado para usufruto daqueles que mais necessitam em nosso país: o povo tão pobre e carente de condições sociais que melhorem a sua vida.

Os cientistas e intelectuais num país como o nosso talvez vivam se questionando sobre o seu papel e o seu lugar. A história está “acontecendo”, ela nos rodeia, nos solicita soluções a todo instante e não espera pelos retardatários. Assim sendo, não devemos conceber a idéia dos intelectuais neutros, que fabricam o seu silêncio perante a realidade social ao se enclausurassem em seus debates técnicos. Não devemos nos conformar em compreender o mundo, devemos transformá-lo com o conhecimento adquirido. Nossa função é servir à população como um todo, desenvolvendo saberes e mecanismos capazes de intervirem na vida daqueles que necessitam de nossos serviços.

Desse modo, o conhecimento torna-se unidade entre a ação e a idéia, entre práxis e teoria, pois a reflexão teórica não se faz descolada da realidade social. Esta relação entre intelectual e sociedade não é uma abstração, é algo tão concreto como um dia após o outro. E, talvez, seja esta relação o lugar que deve o intelectual/cientista não abrir mão, independente de sua origem ou área do saber científico. Este lugar não é um espaço teorético, é um local concreto, palpável, capaz de condicionar a atividade científica rumo à concretização da liberdade dos homens. Os instrumentos técnicos utilizados pelo homem podem coisificá-lo, aliena-lo das potencialidades de sua existência. Por isso, devemos refletir sobre o uso e conseqüências desses mecanismos oriundos da produção científica.

Lembrem-se caros colegas de formatura, a tecnologia que liberta é a mesma que aprisiona. Temos um papel transformador, tais quais os instrumentos que temos nas mãos. Somos profissionais oriundos da Universidade e temos o dever de nos aproximarmos da sociedade. Temos uma dívida para com ela e para com o nosso país. Vivemos num Brasil com milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza, onde apenas uma pequena parcela da população consegue obter um diploma de nível superior. Nosso maior desafio é pensarmos qual o tipo de sociedade desejamos e, para isso, devemos enxergar além das “sombras das cavernas técnicas” nas quais estamos inseridos. A função social do conhecimento, a qual contempla a razão como instrumento em prol da emancipação humana deve ser uma meta buscada e atingida por todos nós!

Por fim, aos que nos ajudaram nessa grande batalha, o nosso eterno agradecimento. São professores e pais que nos incentivaram em cada momento de nossa graduação. Aliás, que os meus queridos pais possam representar neste momento o amor e dedicação de cada um dos pais aqui presentes. Parabéns a todos os formandos, que todos tenham um grande cavalgar profissional neste ano que se inicia e que ele possa trazer novos e gloriosos prenúncios de grandes conquistas a cada um de nós.

Obrigado a todos e boa sorte!

A Natureza Em Questão - A Poluição das Bacias Hidrográficas de Fortaleza

por Dennis de Oliveira Santos



Fortaleza vê-se mais uma vez envolvida numa catastrófica problemática a respeito de questões ambientais. Através da mídia recebemos duras denúncias da ausência de projetos ambientais para a preservação dos rios Ceará, Maranguapinho e Siqueira; seja um parque ecológico ou qualquer outro tipo de projeto que vise à preservação ambiental desses três rios.

Diante deste fato podemos construir uma indagação para refletirmos acerca do assunto: qual é a solução numa perspectiva sócio-ambiental para a preservação dos rios Ceará, Maranguapinho, Siqueira e seus entornos e mangues? Tentaremos então esboçar uma possível solução com fundamentos sociológicos para tal problemática.
Na construção da nossa própria indagação podemos obter uma possível solução para a degradação destes ambientes; devemos buscar um caminho que preze para a preservação ambiental, mas que ao mesmo tempo integre em seu intuito o desenvolvimento social das populações e empresas que utilizam os recursos naturais destes rios. Uma intensa integração das iniciativas estatais, privadas e populares, que com o constante diálogo e ações conjuntas dentre essas instituições, busquem caminhos para a reestruturação ambiental destes rios.

Sendo assim, a primeira iniciativa seria tomada pelo Estado, que é de executar leis ambientais que condenem duramente empresas que poluem estes rios com elementos químicos que não são absorvidos pela natureza, essa ação deve ser feita em primeira instância, visando antes tudo tentar minimizar a forte degradação ambiental nos rios, que atualmente é dada através de inúmeros detritos urbanos que são jogados em suas margens. Sabemos que as leis ambientais foram recentemente criadas, porém, elas já estão suficientes instauradas no âmbito de leis para que administração pública possa desempenhar seu papel de protetora de redutos ambientais, atitude que atualmente não é exercida pelos governantes que administram as regiões destes rios. Costume genuinamente da práxis da política brasileira: há leis bem construídas acerca de alguma mazela social, porém o governante brasileiro não tem o costume de usá-las diante da sociedade.

A segunda iniciativa seria uma parceria entre as instituições estatais e privadas, visando preservar o meio ambiente com projetos que estimule as empresas a participarem no execução de soluções técnicas para o problema. Por exemplo, uma solução técnica dada se baseia em que as empresas enviem seus detritos industriais diretamente para uma área de tratamento de água, que sendo devidamente tratada, poderá ser reaproveitada para o abastecimento de água para a população. Solução técnica onde a iniciativa privada sai ganhando por não está à mercê de leis ambientais que lhe puna por está poluindo os rios, e o governo exerce o seu papel de administrador público, criando um sistema que interligue diretamente as empresas com áreas de reaproveitamento de recursos hídricos, onde além de inibir a poluição, favorece a população com uma fonte a mais de recursos hídricos.

Porém, sabemos que tais projetos podem até ser pensados e criados pelo Estado, mas na maioria das vezes não é executado em função de crises administrativas, ausência de empenho estatal ou por problemas burocráticos em geral. Então é neste contexto que entra a terceira iniciativa, e talvez a mais decisiva para a preservação ambiental dos rios cearenses. Esse terceiro passo é dado através de uma demasiada cobrança da população frente ao Estado. Afinal, o cidadão que paga imposto e elege seus governantes, tem em suas mãos a forte arma da mobilização comunitária. Momento onde a comunidade esteja constantemente revogando pela execução destes projetos, forme passeatas, esteja constantemente se mobilizando através de duras críticas diante da ausência de empenho de seus governantes.

Assim, o Estado sendo duramente cobrado por seus cidadãos, desenvolveria soluções técnicas como: desenvolvimento sustentável para a população, educação ambiental nas esferas educacionais, criação de parques ambientais, aproveitamento dos recursos minerais com consciência e etc. Projetos que além de preservarem o meio ambiente e educar as comunidades entorno destes rios, geram mais um meio de produção econômica para a população.

Enfim, soluções para questões ambientais como esta só podem ser buscadas a partir de um intenso agir e diálogo entre o Estado, a iniciativa privada e as camadas populares. Neste contexto, de uma perspectiva sócio-ambiental, é que desenvolveremos leis ambientais e soluções técnicas que além de preservar o meio ambiente, favoreça as empresas e contribua para o desenvolvimento social da população.