domingo, 27 de novembro de 2016

O Legado de Fidel Castro



O Legado de Fidel Castro

Dennis de Oliveira Santos


Fidel Castro é uma figura política que deve ser compreendida de modo dialético. Existe nessa personalidade um misto de progressismo em avanços sociais conquistados com o emprego de métodos políticos que muitas distanciaram-se de uma vivencia democrática. Experiência política que deve ser criticada e revista. Para uma compreensão mais profunda deve-se abandonar os estereótipos de mocinho ou vilão criados tanto pela direita como pela esquerda.
Cuba deve ser entendida de modo equilibrado - não é um paraíso terral como aponta a extrema esquerda, assim como não é uma "África latino-americana" de desigualdade social como relata a mídia tradicional e os neoliberais. Dados da ONU e do Banco Mundial apontam que a ilha tem um dos melhores idh's da América Latina, um sistema de saúde bastante funcional (o qual inclusive envia médicos para várias partes do planeta), um sistema educacional com índices próximo a 0 % de analfabetismo e com baixos níveis de violência e desemprego entre seus cidadãos.
Ainda do ponto de vista social não pode ser esquecido que desde 1990 o país passa por uma grave recessão econômica. Problema que é devido a desestruturação de seu parceiro comercial (a União Soviética) e aos fortes entraves econômicos impostos pelos Estados Unidos. Sendo assim, para um habitante de um país capitalista é uma incógnita compreender que um cubano tem ótimos serviços públicos estatais ao mesmo tempo que sofre com o racionamento de certos alimentos e usa carros dos anos 1950. Como disse tudo deve ser ponderado, ressaltando avanços, mas também problemas quando se fala dos frutos da revolução cubana.
Em função desses avanços sociais existe tradicionalmente entre vários setores da esquerda uma indulgencia em relação ao governo castrista, o que impede de fazer uma crítica quanto aos métodos políticos para chegar a esses objetivos. Caminhos esses que muitas vezes estiveram em oposição a uma vida democrática. Para pensar isso empiricamente basta recordar a existência de vários presos políticos, a proibição de acesso as prisões locais a Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos e a inexistência de uma estrutura pluripartidária na região.
Obviamente não pode ser feita uma análise anacrônica dessa situação – deve-se entender que a revolução era guiada contra a forte dominação norte americana no país e na luta contra a ditadura de Fulgencio Batista. Num clima de Guerra Fria e na crítica a democracia burguesa do marxismo-leninismo, um conflito armado tinha “suas razões” num ambiente de injustiça social e totalitarismos que eram ambidestros ideologicamente falando. Mas isso não impede que passada algumas décadas seja feito uma crítica a esses métodos tendo em vista de que a democracia é um valor universal – tanto para liberais como socialistas. A ideia de revolução armada hoje não atende aos atuais problemas vividos no mundo e inclusive setores da esquerda abandonaram essa ideia a partir de uma perspectiva gramsciana de poder – apesar das deficiências da democracia representativa existe nela importantes canais (eleições, aparelhos culturais, movimentos sociais, etc) que partidos políticos podem utilizar para gradativamente diminuir as desigualdades sociais.
É fato que a extrema esquerda vê essa concepção como burguesa e até entra em confronto de ideias com o que ficou conhecido como “esquerda reformista”. Mas a realidade social é passível de mudanças, contradições e só uma visão dialética que adapte a todo instante seus métodos para compreender os problemas políticos que surgem torna-se uma concepção válida para enfrentar os desafios sociais. Sendo assim, uma esquerda ortodoxa, incapaz de uma autocrítica, que evita remodelar seus métodos e apega anacronicamente à certos modelos é tão infrutífera politicamente quanto a extrema direita.
Portanto, o cubano em discussão foi um agente político que combinou duas faces: importante líder político que libertou seu povo da miséria e subordinação estrangeira ao mesmo tempo que se desvencilhou de uma prática democrática. Vilão ou herói? Talvez tenha um pouco dos dois! Independente dessas capas ideológicas, Fidel Castro foi uma das figuras mais importantes do século XX ao demonstrar (apesar dos erros) que é possível combater a desigualdade social (um dos principais e urgentes problemas do mundo globalizado).



quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A Vitória de Trump e a Ascenção Global de Governos Direitistas



A Vitória de Trump e a Ascensão Global de Governos Direitistas


Dennis de Oliveira Santos


A explicação da vitória de Trump e a guinada de governos direitistas mundialmente está atrelado a explicações populistas e de bodes expiatórios. Questões que bem manipuladas diante de uma crise global e do afastamento das esquerdas em atender as demandas populares tem alcançado seus objetivos. E isso é um processo histórico que se repete continuamente ao longo do século XX.
A ascensão de Hitler ao poder é o exemplo clássico desse processo. A Alemanha vivia um caos social, o qual era fruto da guerra dos mercados entre as potencias europeias e a sua derrota na Primeira Guerra. As causas do fracasso alemão eram complexas e estavam atreladas a esses fatores. Apesar disso, o autor do Mein Kampf soube se beneficiar dessa fragilidade social ao manipular as emoções coletivas sob a égide de um ensandecido nacionalismo. Ele atribuiu toda a instabilidade local a um bode expiatório, manipulação simplista que serviu como falsa explicação para o problema e gerou um clima de identificação nacional entre os germanos.
Esse bode expiatório eram os judeus habitantes daquele país. Como os alemães viam essa população bem-sucedida ao dominar bancos, comércios, propriedades rurais; identificaram na falácia nazista a lógica de que esses “estrangeiros” estavam tomando os espaços sociais dos nativos. O discurso básico fascista é elencar uma falsa explicação, um bode expiatório de fácil aceitação, fator que superficialmente faça sentido ao povo e o motive a tomar certos caminhos políticos.
Processo político semelhante é observável na vitória do estadunidense Trump. O flagelo social dos Estados Unidos tem como ponto de partida a crise imobiliária no ano de 2008 e ligada as ações do governo republicano de Bush. Entretanto, as consequências maiores foram vividas no governo Obama. Nesse ambiente, o democrata priorizou oferecer assistência aos mais humildes para amenizar os impactos sociais - criou programas de saúde para a população negra, procurou dá estabilidade de moradia aos imigrantes e etc.
Isso gerou uma revolta no seio da população branca e pobre - para esse setor era injusto dá benesses aos mais pobres enquanto eles perdiam seu poder de compra. É como se eles tivessem a sensação de estarem na fila do “sonho americano” enquanto negros e latinos furavam-na com apoio estatal; ganhando antes deles certas benesses. É dentro desse contexto que a ala republicana soube utilizar muito bem a explicação do bode expiatório - a crise existe porque Obama priorizou os negros, deu benefícios demais a eles, permitiu que os mexicanos fossem para o país e tomassem o emprego dos norte americanos. Uma explicação de apelo populista, muito superficial em identificar os reais motivos do crescimento da desigualdade social, mas suficientes para a identificação dos setores sociais menos favorecidos.
No Brasil se observa o mesmo fenômeno político, o país foi afetado pela crise global enquanto Temer utiliza o mesmo mecanismo explicativo ao elencar como a “caixa de pandora tupiniquim” os gastos sociais do PT com setores subalternos. Esse discurso foi responsável pela vitória de Macri na Argentina e tem enfraquecido o governo de Maduro na Venezuela.
Além desse processo acrescenta-se o fato de que as esquerdas se burocratizaram e hoje tem seus projetos políticos mais conhecidos pela classe média do que os próprios pobres. Isso é observável nos democratas a lá Clinton que geralmente pertencem as classes intermediárias nos Eua. O que também foi visto nas eleições municipais do Rio de Janeiro, cidade em que o PSOL teve uma votação mais expressiva entre universitários de melhor poder aquisitivo do que os jovens das favelas locais.

Percebe-se que a esquerda padece de um sólido sistema de comunicação que consiga penetrar nas demandas das classes subalternas. Qual é o resultado dessa condição social? Um contingente expressivo de pobres hoje órfãos de mudanças governamentais efetivas. O que dá margem a esse setor em se identificar com as explicações simplistas de partidos neoliberais. Um processo político observado nos Estados Unidos, América Latina e Europa através das urnas.